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06/11/2018 - Fonte: O Globo | Segundo Caderno | BR

Enfim, o 'ovo' chega ao ninho

VISTO POR 5 MILHÕES de pessoas em 10 anos, espetáculo do Cirque du Soleil dirigido por Deborah Colker estreia no Brasil em março, com reflexão pop sobre diversidade LEONARDO LICHOTE 'Ovo, espetáculo Cirque du Soleil dirigido por Deborah Colker, chega enfim ao Brasil, dez anos após sua estreia no Canadá, em 2009 - e depois de ser visto por 5 milhões de pessoas pelo mundo. Não é uma exceção: os espetáculos da trupe costumam passar anos entre América do Norte, Ásia e Europa antes de chegar à América do Sul.A temporada começa em março de 2019, em Belo Horizonte (de 7 a 17, no Mineirinho), e depois segue para o Rio (de 21 a 31, na Jeunesse Arena), Brasília (5 a 13/4, no Nilson Nelson) e São Paulo (19/4 a 12/5, no Ginásio do lbirapuera). Seria natural que a diretora estivesse ansiosa por saber a reação da plateia brasileira à sua criação - concebida a partir de um olhar brasileiro, não só o dela, mas também o do cenógrafo Gringo Cardia e do compositor Berna Ceppas. E ela está, mas a apreensão se relaciona com um público bem específico: - Minha mãe e meus irmãos ainda não viram o espetáculo - conta. - E quero saber o que meu irmão, (o fotógrafo) Flávio Colker, acha. Ele tem um olho muito crítico. Não que Deborah dê pouca importância para o público em geral. Pelo contrário. Ao longo das últimas décadas, em trabalhos como "Velox" e "Rota", sua companhia desenvolveu m uma linguagem para se comunicar com plateias amplas, para além das fronteiras da dança. Mas ela pensa "Ovo" como um espetáculo de apelo universal, não especialmente brasileiro. - Adoro o público, já fui até atacada por isso. O próprio Cirque é questionado artisticamente - nota Deborah, ressaltando que a trupe nunca teve críticas tão boas em Londres quanto as de "Ovo", que estreou na Inglaterra em janeiro. - Tenho amigos que disseram que eu estava me vendendo quando aceitei o convite pro "Ovo". Mas sempre fui pop. Tenho um público diversificado, que no Brasil inclui enfermeiras e taxistas. Mas é importante dizer que a companhia é experimental. A roda, a parede (de escalada) se tornaram um sucesso, mas ninguém tinha feito. Ninguém sabia que daria certo. "Ovo" é mais um capítulo da trajetória de Deborah, combinando sucesso de público com a expansão de limites da linguagem artística. No palco, ela põe uma lupa sobre o mundo dos insetos - rico em formas, cores e movimentos. Os cenários de Gringo estilizam o habitat de formigas, borboletas, cigarras, escaravelhos e outros bichos em escalas monumentais - para se ter uma ideia, a parede no fundo do palco mede 20m de largura por 9m de altura. - Trabalhamos com a ideia de ninho. A parede é uma espécie de formigueiro gigante - conta Gringo. - Quis construir o maior cenário que já tinha feito. O conceito é de um cenário enorme que vai descascando ao longo do espetáculo até atingir sua essência. E transformamos os equipamentos circenses (como os tamboretes dos malabaristas que foram vertidos em kiwis). O cenógrafo nota uma particularidade do trabalho para o Cirque du Soleil: os cenários têm que ser pensados para durar 15 anos. - O ovo tem que ser feito de titânio, e só um cara no mundo faz do jeito que tem que ser. Acaba ficando tudo mais caro. O cigano tá lá, mas é um cigano tecnopop. E rico. REFERÊNCIA A '2001' O espetáculo começa com um ovo tomando o palco e causando perplexidade nos insetos - referência clara ao monolito de "2001". A partir daí se desenrola a história do inseto estrangeiro, portador do ovo, que chega à comunidade e provoca reações. - É um espetáculo também sobre o que é o estrangeiro, o que é o ovo, o que é o migrante... Uma reflexão que, vemos no noticiário dos últimos anos, é cada vez mais necessária - aponta Deborah. A ideia de trabalhar com insetos foi da diretora, respondendo ao convite de Guy Laliberté, fundador do Cirque. Ele encomendou a ela que tratasse de biodiversidade: - Perguntei se ele queria algo panfletário. Ele me respondeu que não, só de falarmos do assunto já seria ótimo. Fui aos insetos porque era uma maneira que tinha de corresponder a cada técnica circense usando uma família: formiga, grilo, pulga, cigarra... Deborah conta que seu espetáculo sobre aceitação nasceu junto com o neto Theo: - O nascimento do Theo, que sofre de uma doença raríssima, é um marco em minha vida. Ele é minha maior alegria e minha missão - diz Deborah, que faz paralelos entre a trama de "Ovo" e os caminhos políticos que o mundo tem tomado. - Sempre existiu a rejeição ao outro. Mas agora isso vem crescendo de novo, esse nacionalismo ferrenho de Trump e Bolsonaro. Sou judia, sei o que é isso. Essa perseguição a homossexuais e negros existe há muito tempo. E isso ficou mais evidente com a chegada do Theo. Amo X-Men, a ideia de entender os mutantes como seres especiais. "Ovo" fala sobre isso, dentro de sua loucura circense pop. A trilha sonora de Berna sublinha esse conceito, indo da bossa nova ao funk, passando no caminho por gêneros como carimbo e samba. - O Cirque vinha sendo associado a algo datado, a um surrealismo kitsch, com trilhas new age. O visual e o movimento de "Ovo" renovam isso. Procurei, com a minha música, sair desse lugar também, dar um refresh nessa concepção - explica Berna, que disputou a vaga de autor da trilha de "Ovo" com Carlinhos Brown e Emilie Simon (de "Marcha dos pinguins"). Em música, visual e movimento, "Ovo" reflete ideias que são desdobramentos da síntese da fala de Deborah: - Minha parada é a rua. A rua como encontro, como antropofagia, como o lugar onde se deteriora e se recicla. Quando: De 7 a 17 de março (Mineirinho, BH): 21 a 31 de março (Jeunesse Arena, RJ); 5 a 13 de abril (Nilson Nelson, DF); 19 de abril a 12 de maio (Ginásio do Ibirapuera.SP). Início das vendas: 29/11 (BH); 1/12 (RJ e DF); 3/12 (SP). Clientes Bradesco e membros Cirque Club terão compra antecipada. Quanto: R$260 a R$ 550. Classificação: Livre.